III. Vida e Morte
A manhã encontrou-os quase tão cansados quanto na véspera, embora as primeiras luzes do dia lhes trouxessem uma profunda sensação de alívio. Assim que terminaram o frugal café da manhã, composto de carne de porco salgada, café e biscoitos, Clayton começou a trabalhar na construção da casa, pois compreendia que não poderiam ter segurança nem tranquilidade durante as noites até que quatro paredes resistentes se interpusessem de fato entre eles e a vida noturna da selva.
A tarefa era difícil e ocupou quase um mês, embora ele construísse apenas um único cômodo pequeno. Na construção da cabana, utilizou pequenos troncos com cerca de quinze centímetros de diâmetro, fechando as frestas com barro que encontrou a pouca profundidade no solo. Em uma das extremidades, fez uma lareira com pedras trazidas da praia e fixadas também com barro. Quando a casa ficou pronta, aplicou ainda camadas de barro em toda a superfície externa, acrescentando-as até obter uma espessura adicional de aproximadamente dez centímetros.
Na abertura que servia como janela, colocou pequenos galhos com cerca de dois centímetros e meio de diâmetro, tão entrelaçados que formavam uma grade sólida, capaz de resistir à força de qualquer animal. Assim, tinham ar e ventilação adequados sem diminuir a segurança da cabana. O telhado, em forma de A, foi feito com galhos finos sobre os quais colocou ervas longas e resistentes da floresta e grandes folhas de palmeira, tudo coberto por uma camada final de barro.
Clayton fez a porta com tábuas das caixas que haviam guardado suas bagagens, pregando-as umas sobre as outras em camadas cruzadas até formar uma estrutura sólida com cerca de sete centímetros e meio de espessura, tão resistente que os dois riram ao contemplá-la depois de pronta. Então surgiu uma dificuldade: Clayton não tinha como sustentar uma porta tão pesada. Entretanto, após dois dias de trabalho, conseguiu fabricar duas dobradiças de madeira dura e, assim, pôde instalar a porta de modo que ela abrisse e fechasse facilmente.
O revestimento interno e outros acabamentos foram acrescentados depois que já estavam instalados na cabana, o que aconteceu assim que o telhado foi concluído. Durante a noite, empilhavam caixas e malas contra a porta e, dessa maneira, possuíam uma habitação relativamente confortável e segura.
A construção de uma cama, cadeiras, mesa e prateleiras foi uma tarefa comparativamente simples, de modo que, ao final do segundo mês, a instalação estava concluída. Exceto pelo constante medo de serem atacados pelas feras e pela sensação de completo isolamento, eles não se sentiam infelizes nem desconfortáveis. À noite, os grandes animais rugiam e rosnavam ao redor da cabana, mas — como qualquer pessoa pode se acostumar com sons repetidos com frequência — logo deixaram de prestar atenção e dormiam profundamente até a manhã.
Por três vezes haviam avistado grandes vultos de aparência quase humana, semelhantes ao que tinham visto na primeira noite, mas nunca perto o suficiente para saberem com certeza se aquelas figuras eram homens ou animais selvagens.
As aves de muitas cores e os pequenos macacos haviam se acostumado à presença deles. Como parecia evidente que nunca tinham visto antes criaturas humanas, depois dos primeiros dias de medo e surpresa foram se aproximando gradualmente, movidos pela estranha curiosidade que domina os seres selvagens da floresta ou da planície. Assim, ao fim do primeiro mês, algumas aves já aceitavam alimento das mãos amigas dos Claytons.
Certa tarde, enquanto Clayton trabalhava para ampliar sua cabana, à qual pretendia acrescentar mais dois ou três cômodos, alguns dos pequenos macacos vieram saltando e gritando pelas árvores, vindos da direção da elevação do terreno. Olhavam para trás enquanto fugiam e, por fim, pararam junto de Clayton, guinchando agitados, como se tentassem avisá-lo de algum perigo.
E foi então que John Clayton viu aquilo que tanto aterrorizava os pequenos símios: o homem-fera que ele e Alice só haviam conseguido observar ocasionalmente e por breves instantes.
Aproximava-se pela selva, meio erguido, apoiando de vez em quando no chão os enormes punhos fechados — um gigantesco macaco antropoide. Enquanto avançava, soltava profundos grunhidos guturais e, às vezes, uma espécie de latido rouco.
Clayton estava a alguma distância da cabana, pois havia se afastado para derrubar um tronco que lhe parecera especialmente adequado para seus projetos de construção.
Tornara-se descuidado depois de meses de constante segurança, durante os quais nunca havia visto um único animal perigoso durante o dia, e por isso deixara os rifles e revólveres na cabana. Agora via o enorme macaco avançar, esmagando os arbustos em sua direção, vindo de um ponto que praticamente lhe bloqueava a retirada. Um arrepio percorreu sua espinha. Sabia que, armado apenas com um machado, suas chances contra o semelhante monstro eram extremamente pequenas. E Alice? Meu Deus! O que aconteceria com Alice?
Ainda havia uma pequena possibilidade de alcançar a cabana. Ele se virou e correu, soltando um grito de alerta para que Alice fechasse a porta caso o macaco conseguisse cortar seu caminho. Alice estava sentada perto da cabana e, ao ouvir o grito, levantou a cabeça e viu o macaco saltar com uma velocidade impressionante — ainda mais surpreendente em um animal tão grande e pesado — para interceptar o caminho de Clayton.
Com um grito rouco, a jovem correu para a cabana e, ao entrar, lançou para fora um olhar que lhe encheu a alma de terror. A fera havia encurralado John, e ele permanecia parado, segurando o machado com ambas as mãos, pronto para golpeá-lo quando o macaco finalmente atacasse.
— Feche e tranque a porta, Alice! — gritou Clayton. — Eu posso enfrentar este bruto com o machado!
Mas John sabia que estava condenado a uma morte horrível, e a jovem também compreendeu isso. O macaco era um macho enorme, pesando provavelmente cento e cinquenta quilos. Os olhos, muito juntos e ferozes, brilhavam sob os pelos hirsutos da testa fugidia, e os dentes grandes e brancos apareciam num esgar de fúria enquanto ele parava por um instante diante da sua presa.
Sobre o ombro do bruto, Clayton podia ver a porta da cabana, a menos de vinte passos de distância, e uma onda de pavor o percorreu ao ver que Alice reaparecia, armada com um dos rifles. A jovem sempre tivera medo de armas de fogo, nas quais nunca tocava, mas agora corria em direção ao macaco com a temeridade de uma leoa defendendo as crias.
— Para trás, Alice! Pelo amor de Deus, para trás!
Mas ela não obedeceu e, naquele instante, o macaco lançou-se ao ataque, de modo que Clayton nada mais pôde dizer. Firmando os pés no chão, ergueu o machado e desferiu um golpe com toda a força dos seus músculos, mas o poderoso bruto agarrou a arma, arrancou-a de suas mãos e atirou-a para longe.
Com um rugido, o animal saltou sobre a presa e ia cravar-lhe os dentes quando ecoou uma detonação seca, e uma bala o atingiu nas costas, entre os ombros. Empurrando Clayton e derrubando-o, o macaco voltou-se para enfrentar o novo inimigo.
Diante dele estava a frágil mulher, apavorada, tentando em vão disparar novamente. Mas a jovem não compreendia o mecanismo da arma, e o cão batia inutilmente sobre o cartucho vazio.
Quase no mesmo instante, Clayton levantou-se e, sem pensar na sua impotência diante da fera, correu para afastar o macaco do corpo de Alice, que perdera os sentidos. Conseguiu fazê-lo quase sem esforço, e o grande corpo rolou inerte no chão, morto.
A bala cumprira o seu efeito.
Um rápido exame permitiu a Clayton verificar que Alice não estava ferida. O macaco provavelmente morrera no exato instante em que ia saltar sobre ela. Suavemente, John ergueu a esposa e levou-a para a cabana, mas passaram-se duas horas antes que ela recuperasse os sentidos. As primeiras palavras dela assustaram Clayton.
Pouco depois de abrir os olhos, Alice fitou o interior da cabana e murmurou, com um suspiro de alívio:
— Oh, John! É tão bom estar realmente em casa. Tive um sonho horrível, querido. Sonhei que já não estávamos em Londres, mas num lugar horrível onde grandes feras nos atacavam.
— Vamos, Alice, vamos. — disse ele, tocando-lhe a testa. — Tente dormir outra vez e não canse a cabeça com maus sonhos.
Naquela noite nasceu uma criança na pequena cabana à beira da selva primitiva, enquanto um leopardo rosnava diante da porta e, ao longe, ouvia-se o poderoso rugido de um leão.
Lady Greystoke nunca se recuperou do choque provocado pelo ataque do macaco e, embora vivesse por mais um ano após o nascimento do filho, jamais voltou a sair da cabana e nunca conseguiu convencer-se completamente de que não estava na Inglaterra. Às vezes perguntava a John sobre os ruídos que ouviam durante as noites. A ausência de criados e amigos, bem como os móveis estranhamente rústicos do quarto, também despertavam perguntas. Mas, desde que John não tentasse enganá-la, Alice nunca mais compreendeu plenamente o sentido da realidade. Sob os demais aspectos era perfeitamente lúcida, e a alegria de ter um filho, somada às constantes atenções do marido, fez daquele ano o mais feliz de sua jovem existência.
Clayton não ignorava que ela estaria cheia de angústia e apreensões se estivesse em plena posse de suas faculdades mentais. E, embora sofresse profundamente ao vê-la naquele estado, havia ocasiões em que, por amor a ela, mostrava-se quase alegre, para que Alice nada percebesse.
Havia muito tempo que John perdera qualquer esperança de ser socorrido, a não ser por mero acaso. Com incansável dedicação, continuava trabalhando para embelezar o interior da cabana. Peles de leão e de pantera cobriam o chão; armários e estantes revestiam as paredes. Estranhos vasos, moldados por ele com o barro da região, continham belas flores tropicais.
Cortinas tecidas com longas fibras de capim e bambu escondiam as janelas. Além disso, com as poucas ferramentas de que dispunha, trabalhou a madeira para revestir as paredes e instalou um assoalho liso.
O fato de ser capaz de executar tarefas que antes lhe eram completamente estranhas causava-lhe admiração. Mas gostava daquele trabalho porque o fazia por Alice e pelo filho, que lhes trouxera novo ânimo e esperança, embora também aumentasse suas responsabilidades e tornasse ainda mais grave a situação em que viviam.
Durante o ano seguinte, Clayton foi atacado várias vezes pelos grandes macacos que haviam passado a rondar as proximidades da cabana. Mas, como nunca mais saía sem o rifle e os revólveres, os ferozes animais já não o apavoravam.
Eles reforçaram a proteção das janelas e ele instalou uma sólida tranca de madeira na porta. Assim, quando saía para caçar ou colher frutos — o que era constantemente necessário para garantir a sobrevivência dos dois —, não temia que algum animal pudesse invadir a pequena casa. No início, conseguia abater a caça pelas janelas da cabana, mas, com o tempo, os animais aprenderam a temer aquele estranho lugar de onde vinha o estampido.
Nos momentos de descanso, John Clayton lia, às vezes em voz alta para Alice, um dos muitos livros que trouxera na bagagem. Entre eles havia vários destinados a crianças: livros ilustrados, cartilhas e histórias com figuras e texto. Quando partiram da Inglaterra, já sabiam que o bebê nasceria muito antes de poderem pensar em regressar. Em outras ocasiões, John Clayton escrevia em seu diário, hábito que cultivava havia muitos anos. Redigia-o em francês, registrando os acontecimentos da sua estranha existência. Guardava-o dentro de uma caixa metálica fechada.
Um ano após o nascimento do filho, Lady Alice morreu tranquilamente durante a noite. Tão sereno foi o seu fim que Clayton levou horas para se convencer de que ela realmente havia partido.
O horror da situação foi se impondo pouco a pouco, e é difícil saber se algum dia ele chegou a compreender toda a dimensão da perda e a imensa responsabilidade que agora recaía exclusivamente sobre seus ombros: cuidar sozinho de uma criança tão pequena.
A última anotação em seu diário foi escrita na manhã seguinte à morte de Alice. Nela, relatou os tristes acontecimentos num tom impessoal que tornava suas palavras ainda mais dolorosas. Percebe-se nelas uma profunda apatia, feita de cansaço, tristeza e desesperança, uma apatia que nem mesmo aquele golpe cruel foi capaz de transformar em maior sofrimento:
"Meu filhinho chora de fome. Oh, Alice, Alice! O que devo fazer?"
Depois de escrever as últimas palavras que sua mão um dia registraria, John Clayton deixou cair a cabeça sobre os braços apoiados na mesa — a mesma mesa que construíra para aquela que ainda jazia, fria e imóvel, na cama ao seu lado.
Durante muito tempo, nenhum ruído perturbou o silêncio mortal do meio-dia na selva, exceto o choro aflito da criança faminta.