Rainha Alice
— Bem, isso é ótimo! — disse Alice. — Nunca esperei me tornar uma rainha tão cedo. E vou lhe dizer uma coisa, Vossa Majestade — continuou, em tom severo (ela sempre gostava de repreender a si mesma). — Nunca será útil ficar descansando na grama assim! Rainhas precisam ser dignas, sabe?
Então levantou-se e começou a caminhar, um pouco rígida a princípio, pois temia que a coroa pudesse cair. Consolou-se, porém, ao pensar que não havia ninguém para vê-la.
— E, se eu realmente sou uma rainha — disse, sentando-se novamente —, logo aprenderei a lidar com isso muito bem.
Tudo estava acontecendo de maneira tão estranha que ela não se surpreendeu nem um pouco ao encontrar a Rainha Vermelha e a Rainha Branca sentadas ao seu lado, uma de cada lado. Tinha muita vontade de perguntar como haviam chegado ali, mas receava que isso não fosse muito educado. Pensou, porém, que não haveria mal algum em perguntar se a partida havia terminado.
— Por favor, poderiam me dizer... — começou, olhando timidamente para a Rainha Vermelha.
— Fale quando falarem com você! — interrompeu-a a Rainha Vermelha, secamente.
— Mas, se todos obedecessem a essa regra — respondeu Alice, sempre pronta para uma pequena discussão —, e se cada pessoa só falasse quando outra lhe dirigisse a palavra, enquanto a outra esperasse que ela começasse, ninguém jamais diria coisa alguma...
— Que absurdo! — exclamou a Rainha. — Ora, você não vê, criança...?
Ela interrompeu a frase, franziu a testa por um instante e, de repente, mudou completamente de assunto.
— O que quer dizer com "se realmente sou uma rainha"? Que direito você tem de se chamar assim? Você não pode ser rainha enquanto não passar pelo exame apropriado. E quanto mais cedo começarmos, melhor.
— Eu só disse "se"... — protestou a pobre Alice, em tom lamentoso.
As duas Rainhas trocaram um olhar, e a Rainha Vermelha comentou, com um leve estremecimento:
— Ela diz que só disse "se"...
— Mas disse muito mais do que isso! — gemeu a Rainha Branca, torcendo as mãos. — Ah, muito mais!
— E disse mesmo — confirmou a Rainha Vermelha. — Sempre fale a verdade, pense antes de falar e escreva depois.
— Tenho certeza de que não quis dizer... — começou Alice.
Mas a Rainha Vermelha tornou a interrompê-la.
— É justamente disso que estou reclamando! Você devia querer dizer! De que serve uma criança sem sentido? Até uma piada deve ter algum sentido, e uma criança é mais importante do que uma piada, espero. Você não conseguiria negar isso, mesmo que tentasse com as duas mãos.
— Eu não nego as coisas com as mãos — objetou Alice.
— Ninguém disse que você faz isso — respondeu a Rainha Vermelha. — Eu disse que você não conseguiria, mesmo que tentasse.
— Ela está nesse estado de espírito — comentou a Rainha Branca — em que quer contradizer alguma coisa, mas nem sabe o quê.
— Um temperamento desagradável e implicante — observou a Rainha Vermelha.
Seguiu-se um silêncio constrangedor por um minuto ou dois.
Foi a Rainha Vermelha quem o rompeu.
— Convido você para o jantar de Alice, esta tarde.
A Rainha Branca sorriu debilmente.
— E eu também convido você.
— Eu nem sabia que ia oferecer um jantar! — disse Alice. — Mas, se houver um, acho que sou eu quem deve convidar os convidados.
— Nós lhe demos a oportunidade de fazê-lo — observou a Rainha Vermelha. — Mas imagino que você ainda não tenha tido muitas lições de etiqueta.
— Etiqueta não é ensinada nas aulas — respondeu Alice. — Nas aulas ensinam aritmética e coisas desse tipo.
— E você sabe fazer adição? — perguntou a Rainha Branca. — Quanto é um mais um mais um mais um mais um mais um mais um mais um mais um mais um?
— Não sei — respondeu Alice. — Perdi a conta.
— Ela não sabe fazer adição — interrompeu a Rainha Vermelha. — Sabe fazer subtração? Tire nove de oito.
— Nove de oito eu não consigo tirar, sabe... — respondeu Alice prontamente.
— Ela também não sabe fazer subtração — declarou a Rainha Branca. — E divisão? Divida um pão por uma faca. Qual é o resultado?
— Acho que...
— Pão com manteiga, é claro! — respondeu a Rainha Vermelha antes que Alice pudesse terminar. — Vamos tentar outro problema. Tire um osso de um cachorro. O que sobra?
Alice refletiu por um instante.
— O osso, certamente, não sobra, porque eu o tirei. E o cachorro também não ficaria, pois viria me morder... e tenho certeza de que eu também não ficaria!
— Então você acha que não sobraria nada? — perguntou a Rainha Vermelha.
— Acho que sim.
— Errado, como sempre — declarou a Rainha Vermelha, triunfante. — A raiva do cachorro permaneceria.
— Mas não vejo como...
— Ora, veja só! — exclamou a Rainha Vermelha. — O cachorro perderia a paciência, não perderia?
— Talvez... — respondeu Alice, cautelosamente.
— Então, se o cachorro fosse embora, a raiva dele permaneceria! — concluiu a Rainha, triunfante.
Alice respondeu, o mais seriamente que pôde:
— Eles podem seguir caminhos diferentes.
Mas não conseguiu deixar de pensar consigo mesma:
— Que bobagem extraordinária estamos falando!
— Ela não sabe fazer contas de jeito nenhum! — disseram as Rainhas em uníssono, com grande ênfase.
— E vocês sabem fazer contas? — perguntou Alice, voltando-se de repente para a Rainha Branca, pois não gostava de ser criticada.
A Rainha engasgou e fechou os olhos.
— Consigo fazer adição, se me derem tempo, mas não consigo fazer subtração em hipótese alguma!
— É claro que você conhece o alfabeto? — perguntou a Rainha Vermelha.
— Claro — respondeu Alice.
— Eu também — sussurrou a Rainha Branca. — Costumávamos recitá-lo juntas. E vou lhe contar um segredo: consigo ler palavras de uma letra só! Isso não é maravilhoso? Mas não desanime. Você chegará lá com o tempo.
A Rainha Vermelha retomou o interrogatório:
— Você sabe responder a perguntas úteis? Como se faz pão?
— Eu sei! — exclamou Alice, ansiosamente. — Você pega um pouco de farinha...
— Onde se colhe a farinha? — perguntou a Rainha Branca. — Num jardim ou nas sebes?
— Bem, ela não é colhida... — começou Alice a explicar.
— Quantos hectares de terra? — interrompeu a Rainha Branca. — Você não deve deixar tantas coisas de fora.
— Abanem a cabeça dela! — ordenou a Rainha Vermelha, aflita. — Ela vai ficar febril de tanto pensar.
Então as duas começaram a abaná-la com grandes ramos de folhas, até que Alice teve de implorar para que parassem, pois haviam despenteado completamente seus cabelos.
— Agora ela está melhor — disse a Rainha Vermelha. — Você sabe idiomas? Como se diz fiddle-de-dee em francês?
— Fiddle-de-dee não é inglês — respondeu Alice, com toda a seriedade.
— Quem disse que era? — retrucou a Rainha Vermelha.
Alice achou que, dessa vez, tinha encontrado uma saída.
— Se a senhora me disser de que língua é fiddle-de-dee, eu lhe direi como se diz em francês! — exclamou triunfante.
Mas a Rainha Vermelha ergueu o queixo e declarou:
— Rainhas nunca fazem barganhas.
"Gostaria que as rainhas também nunca fizessem perguntas", pensou Alice consigo mesma.
— Não vamos discutir — disse a Rainha Branca, ansiosamente. — O que vem primeiro num raio?
— Num raio há o relâmpago e o trovão — respondeu Alice com convicção. — É o trovão... não, não! — corrigiu-se depressa. — Quero dizer, é o relâmpago.
— Tarde demais para corrigir — declarou a Rainha Vermelha. — Depois que uma coisa é dita, está dita, e você precisa arcar com as consequências.
— Isso me faz lembrar... — disse a Rainha Branca, olhando para baixo enquanto entrelaçava nervosamente os dedos. — Tivemos uma tempestade tão forte na terça-feira passada... Quero dizer, numa das últimas terças-feiras, sabe.
Alice ficou intrigada.
— No nosso país — observou — só existe um dia de cada vez.
— É uma maneira muito pobre de organizar as coisas — respondeu a Rainha Vermelha. — Aqui, normalmente temos dois ou três dias e noites ao mesmo tempo. E, no inverno, às vezes juntamos cinco noites de uma vez... para nos manter aquecidos, sabe.
— Cinco noites são mais quentes do que uma? — perguntou Alice, hesitante.
— Cinco vezes mais quentes, naturalmente.
— Mas, pela mesma lógica, também deveriam ser cinco vezes mais frias...
— Ora essa! — exclamou a Rainha Vermelha. — Cinco vezes mais quentes e cinco vezes mais frias, exatamente como eu sou cinco vezes mais rica do que você e cinco vezes mais inteligente!
Alice suspirou e desistiu.
— É exatamente como um enigma sem resposta! — pensou.
— Humpty Dumpty também percebeu isso — continuou a Rainha Branca em voz baixa, mais como se falasse consigo mesma. — Ele veio até a porta com um saca-rolhas na mão...
— O que ele queria? — perguntou a Rainha Vermelha.
— Disse que ia entrar — prosseguiu a Rainha Branca — porque estava procurando um hipopótamo. Ora, imagine só! Naquela manhã não havia nenhum hipopótamo na casa.
— Geralmente há? — perguntou Alice, surpresa.
— Bem, só às quintas-feiras — respondeu a Rainha Branca.
— Eu sei por que ele veio — disse Alice. — Queria castigar o peixe, porque...
Mas a Rainha Branca recomeçou imediatamente:
— Foi uma tempestade tão forte que você nem pode imaginar!
— Ela nunca consegue — comentou a Rainha Vermelha.
— Parte do telhado foi arrancada, e um monte de trovões entrou rolando pela sala em grandes pedaços, derrubando mesas e cadeiras. Fiquei tão assustada que não consegui nem me lembrar do meu próprio nome!
Alice pensou consigo mesma:
"Eu nunca tentaria lembrar meu nome no meio de um acidente. De que isso adiantaria?"
Mas não disse isso em voz alta, com medo de ferir os sentimentos da pobre Rainha.
— Vossa Majestade deve desculpá-la — disse a Rainha Vermelha a Alice, tomando uma das mãos da Rainha Branca e acariciando-a delicadamente. — Ela tem as melhores intenções, mas não consegue evitar dizer bobagens. É da natureza dela.
A Rainha Branca lançou a Alice um olhar tímido, e Alice sentiu que devia dizer alguma coisa gentil, mas não conseguiu pensar em nada.
— Ela não recebeu uma boa educação — continuou a Rainha Vermelha —, mas é espantoso como é bem-humorada! Faça um carinho na cabeça dela e veja como ficará contente!
Mas isso era mais do que Alice ousava fazer.
— Um pouco de gentileza e alguns rolinhos para os cabelos fariam maravilhas por ela...
A Rainha Branca suspirou profundamente e apoiou a cabeça no ombro de Alice.
— Estou com tanto sono... — murmurou.
— Pobrezinha, está cansada! — disse a Rainha Vermelha. — Alise os cabelos dela, empreste-lhe sua touca de dormir e cante uma cantiga de ninar.
— Não trouxe nenhuma touca de dormir — respondeu Alice, enquanto obedecia à primeira instrução. — E também não conheço nenhuma cantiga de ninar.
— Então farei isso eu mesma — disse a Rainha Vermelha, começando a cantar:
Durma, senhora, no colo de Alice!
Até o banquete começar, ainda há tempo para cochilar.
Quando o banquete terminar, iremos ao baile:
Rainha Vermelha, Rainha Branca, Alice e todos mais!
— Agora que você já sabe a letra — acrescentou, apoiando também a cabeça no outro ombro de Alice —, continue cantando para mim. Estou ficando com sono.
No instante seguinte, as duas Rainhas dormiam profundamente e roncavam alto.
— O que é que eu faço agora? — exclamou Alice, completamente desnorteada.
Primeiro uma cabeça redonda, depois a outra, escorregaram de seus ombros e caíram pesadamente em seu colo.
— Aposto que nunca aconteceu de alguém ter de tomar conta de duas Rainhas adormecidas ao mesmo tempo! Não, em toda a História da Inglaterra isso nunca aconteceu, porque nunca houve mais de uma rainha de cada vez. Acordem, suas pesadonas!
Mas a única resposta foi um ronco suave.
O ronco tornava-se cada vez mais distinto e acabou adquirindo uma espécie de melodia. Por fim, Alice chegou até a distinguir palavras e escutava com tanta atenção que, quando as duas grandes cabeças desapareceram de seu colo, mal percebeu.
Ela estava de pé diante de uma porta em arco, sobre a qual se lia, em grandes letras:
RAINHA ALICE
De cada lado do arco havia uma campainha: uma dizia Campainha dos Visitantes, e a outra, Campainha dos Criados.
"Vou esperar a música terminar"m pensou Alice. "Depois toco a... qual delas devo tocar? Eu não sou uma visitante... e também não sou uma criada. Devia haver uma campainha escrita 'Rainha', não é?"
Nesse momento, a porta entreabriu-se, e uma criatura de bico comprido pôs a cabeça para fora por um instante e disse:
— Não entra ninguém até a semana que vem!
Em seguida, fechou a porta com estrondo.
Alice bateu e tocou as campainhas inutilmente por um bom tempo. Por fim, um velho Sapo, que estava sentado debaixo de uma árvore, levantou-se e caminhou lentamente até ela. Vestia um casaco amarelo-vivo e usava botas enormes.
— O que foi agora? — perguntou o Sapo, num sussurro rouco e profundo.
Alice virou-se, pronta para repreender quem quer que fosse.
— Onde está o criado encarregado de atender à porta? — perguntou, irritada.
— Que porta? — retrucou o Sapo.
Alice quase corou de impaciência com a lentidão com que ele falava.
— Esta porta, é claro!
O Sapo encarou a porta com seus grandes olhos opacos durante um minuto inteiro. Depois aproximou-se, esfregou-a com o polegar, como se quisesse ver se a tinta saía, e então voltou-se para Alice.
— Atender à porta? — repetiu. — O que foi que a porta pediu?
Ele era tão rouco que Alice mal conseguiu entender suas palavras.
— Não faço ideia do que o senhor quer dizer — respondeu ela.
— Eu falei inglês? — o Sapo continuou. — Ou você é surda? O que ela pediu a você?
— Nada! — respondeu Alice, impaciente. — Eu tenho batido nela!
— Não deveria fazer isso, não deveria fazer isso… — murmurou o Sapo. — Aborrece, você sabe.
Então ele pulou e deu um chute na porta com um de seus grandes pés.
— Você, deixe a garota em paz — ofegou, enquanto mancava de volta para sua árvore. — Ela vai deixar você em paz.
Nesse momento a porta se abriu e uma voz estridente foi ouvida cantando:
“Para o mundo do Espelho, foi Alice quem disse.
'Tenho um cetro na mão, tenho uma coroa na cabeça,
Que as criaturas do Espelho, sejam elas quais forem, venham
jantar com a Rainha Vermelha, a Rainha Branca e comigo.'”
E centenas de vozes se juntaram ao coro:
“Então encha os copos o mais rápido que puder,
E salpique a mesa com botões e farelo,
Coloque gatos no café e ratos no chá
E dê as boas-vindas à Rainha Alice com trinta vezes três!”
Em seguida, seguiu-se um ruído confuso de aplausos, e Alice pensou consigo mesma:
— Trinta vezes três são noventa. Será que alguém está contando?
Em um minuto houve silêncio novamente, e a mesma voz estridente cantou outro verso:
“'Ó criaturas do Espelho', disse Alice, 'aproximem-se!
É uma honra me ver, um favor ouvir
É um grande privilégio jantar e tomar chá
Junto com a Rainha Vermelha, a Rainha Branca e eu!'”
Então veio o refrão novamente:
“Então encha os copos com melaço e tinta,
Ou qualquer outra coisa que seja agradável de beber,
Misture areia com cidra e lã com vinho
E dê as boas-vindas à Rainha Alice com noventa vezes nove!”
— Noventa vezes nove! — repetiu Alice, em desespero. — Ah, isso nunca será feito! É melhor eu entrar imediatamente...
Houve um silêncio mortal no momento em que ela apareceu.
Alice olhou nervosamente ao longo da mesa, enquanto caminhava pelo grande salão, e notou que havia cerca de cinquenta convidados, de todos os tipos. Alguns eram animais, alguns pássaros, e havia até algumas flores entre eles.
"Fico feliz por eles terem vindo sem esperar para serem convidados", pensou ela. "Eu nunca saberia quem eram as pessoas certas para convidar!"
Havia três cadeiras na cabeceira da mesa. As Rainhas Vermelha e Branca já haviam ocupado duas delas, mas a do meio estava vazia. Alice sentou-se nela, bastante desconfortável com o silêncio, desejando que alguém dissesse alguma coisa.
Por fim, a Rainha Vermelha começou:
— Você perdeu a sopa e o peixe. Tragam a carne!
Os criados puseram uma perna de carneiro diante de Alice, que olhou para ela com bastante ansiedade, pois nunca tivera de trinchar um carneiro antes.
— Você parece um pouco tímida. Deixe-me apresentá-la a essa perna de carneiro — disse a Rainha Vermelha. — Alice... Carneiro. Carneiro... Alice.
A perna de carneiro ergueu-se no prato e fez uma pequena reverência para Alice, que retribuiu a reverência, sem saber se ficava assustada ou divertida.
— Posso oferecer uma fatia? — perguntou ela, pegando a faca e o garfo e olhando de uma Rainha para a outra.
— Claro que não — disse a Rainha Vermelha, muito decidida. — Não é de etiqueta cortar alguém a quem você acabou de ser apresentada. Removam a carne!
Os criados a levaram e trouxeram um grande pudim de ameixa em seu lugar.
— Eu não vou ser apresentada ao pudim, por favor — disse Alice, um pouco apressadamente. — Ou não teremos jantar nenhum. Posso lhe servir um pedaço?
Mas a Rainha Vermelha pareceu mal-humorada e rosnou:
— Pudim... Alice. Alice... Pudim. Retirem o pudim!
Os criados o levaram tão depressa que Alice não conseguiu sequer retribuir a reverência.
No entanto, ela não via por que a Rainha Vermelha deveria ser a única a dar ordens. Então, como uma experiência, gritou:
— Garçom! Traga de volta o pudim!
E lá estava ele novamente num instante, como um truque de mágica.
Era tão grande que ela não pôde deixar de se sentir um pouco tímida diante dele, como havia acontecido com o carneiro. Ainda assim, venceu a timidez com um grande esforço, cortou uma fatia e a ofereceu à Rainha Vermelha.
— Que impertinência! — disse o Pudim. — Gostaria de ver como você se sentiria se eu cortasse uma fatia de você, sua criatura!
Ele falou com uma voz grossa e suave, e Alice ficou sem palavras. Apenas permaneceu sentada, olhando para ele, e suspirou.
— Faça algum comentário — disse a Rainha Vermelha. — É ridículo deixar toda a conversa por conta do pudim!
— Sabe, hoje recitaram uma quantidade enorme de poesia para mim — começou Alice, um pouco assustada ao perceber que, no instante em que abriu a boca, caiu um silêncio absoluto e todos os olhos se voltaram para ela. — E há uma coisa muito curiosa, eu acho... Todos os poemas eram sobre peixes, de algum modo. Você sabe por que gostam tanto de peixes por aqui?
Ela dirigiu a pergunta à Rainha Vermelha, cuja resposta foi um pouco fora de propósito.
— Quanto aos peixes — disse ela, muito lenta e solenemente, aproximando a boca do ouvido de Alice —, Sua Majestade Branca conhece um encantador enigma... todo em versos... todo sobre peixes. Ela deve recitá-lo?
— Sua Majestade Vermelha é muito gentil em mencionar isso — murmurou a Rainha Branca no outro ouvido de Alice, em uma voz semelhante ao arrulho de um pombo. — Seria um mimo! Posso?
— Por favor — disse Alice, muito educadamente.
A Rainha Branca riu com prazer e acariciou a bochecha de Alice. Então começou:
Primeiro, o peixe deve ser pescado.
Isso é fácil; um bebê, eu acho, poderia tê-lo pegado.
Em seguida, o peixe deve ser comprado.
Isso é fácil; um centavo, eu acho, teria comprado.
Agora cozinhe o peixe para mim!
Isso é fácil e não levará mais de um minuto.
Deixe-o repousar em um prato!
Isso é fácil, porque já está nele.
Traga isso aqui! Deixe-me jantar!
É fácil colocar tal prato na mesa.
Levante a tampa do prato!
Ah, isso é tão difícil que temo ser incapaz!
Pois ele a segura como cola,
Segura a tampa do prato enquanto ele está no meio.
O que é mais fácil de fazer,
Descobrir o peixe ou cobrir o enigma?
— Reserve um minuto para pensar sobre isso e depois adivinhe — disse a Rainha Vermelha. — Enquanto isso, vamos beber à sua saúde, à saúde da Rainha Alice!
Ela gritou a plenos pulmões, e todos os convidados começaram a beber imediatamente. De maneira muito estranha, eles conseguiram fazê-lo: alguns colocaram os copos sobre a cabeça, como uma cachoeira, e beberam tudo o que escorria pelo rosto; outros viraram os decantadores e beberam o vinho que escorria pelas bordas da mesa; e três deles (que pareciam cangurus) entraram no prato de carneiro assado e começaram a lamber o molho avidamente.
"Como porcos em um cocho!", pensou Alice.
— Você deveria retribuir os agradecimentos com um discurso elegante — disse a Rainha Vermelha, franzindo a testa para Alice enquanto falava.
— Nós devemos apoiá-la, você sabe — sussurrou a Rainha Branca, enquanto Alice se levantava para fazer isso, muito obedientemente, mas um pouco assustada.
— Muito obrigada — sussurrou ela em resposta —, mas eu posso ficar muito bem sem fazê-lo.
— Não daria certo — disse a Rainha Vermelha, muito decidida.
Então Alice tentou se submeter àquilo de boa vontade.
(“E elas me forçaram!”, disse ela depois, quando contava a história da festa à irmã. “Você acharia que elas queriam me espremer!”)
Na verdade, foi bastante difícil para ela permanecer em seu lugar enquanto fazia seu discurso. As duas Rainhas a empurraram, uma de cada lado, de modo que quase a levantaram no ar.
— Levanto-me para agradecer... — começou Alice.
E ela realmente se elevou vários centímetros enquanto falava, mas segurou a beirada da mesa e conseguiu se puxar para baixo novamente.
— Cuidado! — gritou a Rainha Branca, agarrando o cabelo de Alice com ambas as mãos. — Algo vai acontecer!
E então (como Alice depois descreveu), todo tipo de coisa aconteceu em um instante. As velas cresceram até o teto, parecendo uma plantação de juncos com fogos de artifício no topo.
Quanto às garrafas, cada uma pegou um par de pratos, que rapidamente se encaixaram como asas, e assim, com garfos no lugar das pernas, foram esvoaçando em todas as direções.
"E parecem muito com pássaros", pensou Alice consigo mesma, tão bem quanto podia em meio à terrível confusão que começava.
Nesse momento, ela ouviu uma risada rouca ao seu lado e se virou para ver qual era o problema com a Rainha Branca. Mas, em vez da Rainha, havia a perna de carneiro sentada na cadeira.
— Aqui estou! — gritou uma voz vinda da terrina de sopa.
Alice virou-se novamente, bem a tempo de ver o rosto largo e bem-humorado da Rainha sorrindo para ela por um momento sobre a borda da terrina, antes de desaparecer na sopa.
Não havia um momento a perder. Vários dos convidados já estavam deitados nos pratos, e a concha de sopa estava subindo pela mesa em direção à cadeira de Alice, acenando para ela impacientemente para que saísse do caminho.
— Não aguento mais isso! — gritou ela, enquanto se levantava de um salto e agarrava a toalha da mesa com as duas mãos.
Com um bom puxão, pratos, convidados e velas caíram juntos em uma pilha no chão.
— E quanto a você... — continuou ela, virando-se ferozmente para a Rainha Vermelha, a quem considerava a causa de todos os danos.
Mas a Rainha já não estava mais ao seu lado. De repente, ela havia diminuído até o tamanho de uma pequena boneca e agora estava sobre a mesa, correndo alegremente em círculos atrás de seu próprio xale, que se arrastava atrás dela.
Em qualquer outro momento, Alice teria se sentido surpresa com aquilo, mas estava animada demais para se surpreender com qualquer coisa naquele instante.
— Quanto a você... — repetiu ela, agarrando a criaturinha no exato momento em que pulava sobre uma garrafa que acabara de cair sobre a mesa. — Eu vou sacudir você até virar uma gatinha, eu vou!