XIII. Sua Própria Espécie
Na manhã seguinte, Tarzan, ainda ressentido das feridas que sofrera na luta com Terkoz, partiu para oeste, na direção do mar.
Viajou lentamente, dormindo na selva naquela noite, e chegou à cabana na manhã seguinte. Durante alguns dias pouco se moveu, apenas o suficiente para apanhar frutos e nozes com que matar a fome. Ao fim de dez dias estava completamente restabelecido, conservando, no entanto, a marca, ainda não cicatrizada por completo, da dentada que Terkoz lhe dera na cabeça. A cicatriz começava acima do olho esquerdo e, contornando o alto da cabeça, ia até a orelha direita. Toda a pele havia sido rasgada.
Durante a convalescença tentou fazer uma cobertura com a pele fulva de Sabor, que deixara na cabana . Mas nada sabia da arte de curtir couro e, assim, a pele secou e tornou-se dura como uma tábua. Foi obrigado a abandonar a ideia.
Decidiu, então, usar os adornos tirados de um dos negros da aldeia de Mbonga. Tarzan resolvera marcar, de todas as formas, a sua evolução, e nada lhe parecia tão próprio da dignidade humana quanto as roupas e os adornos.
Para isso, reuniu os ornamentos de braços e pernas que tirara dos guerreiros negros vencidos pelo rápido e silencioso laço de corda, e colocou-os em si mesmo da maneira como vira os negros usá-los. Em volta do pescoço pendia a corrente de ouro com o medalhão que pertencera à sua mãe, cravejado de diamantes. Às costas trazia a aljava com as flechas envenenadas, presa por uma tira de couro que passava sobre o ombro direito. Na cintura usava um cinto feito de tiras de pele de cervo, do qual pendia, numa bainha confeccionada por ele mesmo, a faca de seu pai. Sobre o ombro esquerdo levava o longo arco que pertencera a Kulonga.
Era, na verdade, uma estranha figura de guerreiro, com os cabelos negros caindo sobre os ombros e cortados à frente com uma faca, para não lhe encobrirem os olhos. O corpo forte, esbelto e musculoso, como talvez o do mais vigoroso dos gladiadores romanos, possuía ao mesmo tempo a leveza graciosa de um deus grego. Era a perfeita personificação do homem da natureza, caçador e guerreiro.
A bela e nobre cabeça sobre os largos ombros, e o brilho da viva inteligência nos olhos cinzentos, davam-lhe o aspecto de um personagem mitológico ou de um herói pertencente a um povo de guerreiros.
Mas Tarzan não pensava nessas coisas. Preocupava-o a ideia de não possuir roupas que claramente indicassem, a todos os habitantes da floresta, que era um homem e não um macaco — e, por vezes, temia vir realmente a tornar-se um deles.
Não começava a nascer-lhe barba? Todos os macacos a tinham pelos no rosto, mas os negros eram quase sempre desprovidos desses pelos, salvo raras exceções. É verdade que vira, nos livros, figuras de homens brancos com barba e bigode, mas, ainda assim, receava aquela semelhança. Passou, então, a umedecer a afiada faca e raspar a barba nascente quase todos os dias, para eliminar aquele sinal degradante de parentesco com os macacos.
Foi dessa maneira que Tarzan aprendeu a fazer a barba, de um modo tosco e doloroso, mas, ainda assim, eficaz.
Quando voltou a sentir-se plenamente recuperado da feroz luta contra Terkoz, partiu certa manhã em direção à aldeia de Mbonga. Caminhava despreocupadamente por uma trilha da floresta, em vez de seguir saltando de galho em galho, quando, de súbito, encontrou-se frente a frente com um guerreiro negro. A expressão de surpresa estampada no rosto do selvagem era quase cômica e, antes que Tarzan pudesse empunhar o arco, o homem voltou-se e fugiu desesperadamente, gritando para avisar os companheiros que vinham logo atrás.
Tarzan saltou para as árvores e iniciou a perseguição. Poucos instantes depois já avistava os três vultos correndo em fila pelo mato fechado. Ultrapassou-os facilmente por cima das copas, sem que percebessem sua silenciosa passagem, e logo se colocou adiante deles, agachado sobre um galho.
Deixou passar os dois primeiros. Quando o terceiro corria logo abaixo, ofegante, a corda silenciosa enroscou-se em seu pescoço. Um rápido puxão retesou o laço.
A vítima soltou um grito de agonia. Os outros dois voltaram-se apenas para ver o companheiro erguer-se no ar, como por encanto, desaparecendo lentamente entre a folhagem de uma árvore. Tomados de pavor, retomaram a fuga com velocidade ainda maior, se isso era possível.
Tarzan matou o prisioneiro de forma rápida e silenciosa, retirou-lhe as armas e os adornos e, com enorme satisfação, apoderou-se de uma espécie de tanga feita de pele de cervo, que vestiu imediatamente. Agora, afinal, estava vestido como um homem devia estar. Ninguém poderia duvidar de sua origem. Por alguns instantes pensou em quanto lhe agradaria voltar à tribo apenas para exibir aquelas novas galas.
Colocando o corpo sobre um dos ombros, avançou mais lentamente entre as árvores, na direção da paliçada da aldeia. Precisava de mais flechas.
Ao aproximar-se da paliçada, viu um grupo agitado reunido em torno dos dois fugitivos, que, ainda trêmulos de medo e de cansaço, mal conseguiam relatar os fantásticos acontecimentos. Contavam que Mirando, que seguia alguns metros à frente deles, surgira de repente aos gritos, afirmando que um terrível guerreiro branco e quase nu o perseguia.
Então todos os três haviam corrido na direção da aldeia, tão depressa quanto podiam. Mais uma vez tinham escutado os gritos de Mirando e, ao olharem para trás, viram a coisa mais horrível: o corpo do companheiro subia no ar, na direção das árvores, agitando pernas e braços, com a língua pendente para fora da boca aberta. Não ouviram mais nenhum ruído, nem viram quem quer que fosse.
Os outros negros começaram a ser dominados pelo medo, que logo se transformaria em pânico. Mas o velho Mbonga, prudente e experiente, fingiu não acreditar na história, atribuindo-a à imaginação dos dois homens, aterrorizados diante de um perigo real.
— Contam uma grande história — disse ele — porque não têm coragem de dizer a verdade. Não querem confessar que fugiram quando o leão atacou Mirando e o levou. São covardes!
Mbonga mal terminara de falar quando todos ouviram um violento estalar de galhos nas árvores acima deles. Os negros ergueram os olhos e o que viram fez até o próprio Mbonga estremecer de pavor. Girando pelo ar, vinha o corpo de Mirando, que caiu com um baque surdo bem ao lado deles. No mesmo instante, todos fugiram, sem parar até desaparecerem nas sombras da floresta.
Então Tarzan saltou para o chão, renovou sua provisão de flechas e comeu os alimentos que os negros continuavam deixando para apaziguar o "espírito maligno" e aplacar sua cólera. Antes de partir, levou o corpo de Mirando até a entrada da paliçada e o deixou de modo que o rosto do morto parecesse vigiar a trilha que conduzia à selva.
Tarzan retornou à cabana da praia, caçando pelo caminho.
Somente depois de muitas tentativas os negros, ainda apavorados, conseguiram entrar na aldeia, passando diante do cadáver do companheiro, cuja expressão parecia sorrir para eles. Quando viram que a comida e as flechas haviam desaparecido, convenceram-se daquilo que já suspeitavam: Mirando encontrara o espírito maligno da floresta. Aquela lhes parecia a única explicação possível. Todos os que viam o espírito... morriam. Não era verdade que nenhum dos sobreviventes o havia visto? Portanto, os mortos eram justamente aqueles que haviam ousado contemplá-lo e pago por isso com a própria vida.
Enquanto lhe oferecessem comida e flechas, o espírito maligno não lhes faria mal, desde que não tentassem vê-lo. Assim, Mbonga ordenou que, além dos alimentos, também deixassem uma oferta de flechas para Munango-Keewati. A partir de então, isso passou a ser feito regularmente.
Quem passar por aquela distante aldeia poderá ainda encontrar, diante de uma pequena cabana erguida fora da paliçada, um recipiente de ferro com comida e uma aljava cheia de flechas envenenadas.
Quando Tarzan alcançou a praia onde se erguia sua cabana, deparou-se com um espetáculo inesperado. Nas águas calmas da enseada protegida pelo promontório flutuava um grande navio, enquanto um pequeno bote repousava sobre a areia. Mais surpreendente ainda, vários homens, brancos como ele, caminhavam entre a praia e a cabana. Tarzan percebeu que, em muitos aspectos, eram iguais aos homens retratados nos livros ilustrados que tanto estudara. Aproximou-se em silêncio, movendo-se entre as árvores até permanecer oculto bem acima deles.
Eram dez homens robustos, queimados pelo sol e de aparência brutal. Reunidos junto ao bote, discutiam em voz alta, gesticulando e brandindo os punhos. Em determinado momento, um homem baixo, de rosto astuto e barba negra, que recordou a Tarzan o focinho de Pamba, o rato, pousou a mão no ombro de um companheiro alto e vigoroso, uma espécie de gigante com quem os demais discutiam. O homem baixo apontou para o interior da mata e o gigante voltou-se para olhar.
Assim que ele virou as costas, o homem de barba sacou um revólver do cinto e disparou à queima-roupa. O gigante ergueu as mãos acima da cabeça, os joelhos cederam e ele tombou de bruços na areia, morto, sem emitir um único grito.
A detonação da arma — a primeira que Tarzan ouvira em toda a sua vida — deixou-o profundamente espantado. Nem mesmo aquele estampido desconhecido, porém, abalou seus nervos ou despertou qualquer sensação de medo. O comportamento daqueles homens brancos, contudo, perturbou-o profundamente. Franziu a testa e refletiu em silêncio. Ainda bem que resistira ao impulso inicial de correr ao encontro deles para saudá-los como irmãos.
Era evidente que não havia grande diferença entre aqueles homens e os negros da floresta. Não pareciam mais civilizados que os macacos, nem menos cruéis que Sabor.
Durante alguns instantes, os demais permaneceram olhando para o homem de barba e para o gigante estendido na areia. Então um deles riu e deu uma palmada nas costas do assassino traiçoeiro.
Continuaram conversando e gesticulando, agora sem discutir. Depois empurraram o bote para a água, embarcaram e remaram de volta ao navio, em cujo convés Tarzan distinguia outras figuras movimentando-se.
Quando todos já estavam a bordo, Tarzan desceu silenciosamente da árvore e deslizou até a cabana. Lá dentro encontrou tudo revirado. Os livros e os lápis estavam espalhados pelo chão. As armas, os escudos e os demais objetos que formavam o seu precioso tesouro também haviam sido atirados de qualquer maneira.
Ao ver o que haviam feito, uma onda de fúria tomou conta de Tarzan, e a cicatriz em sua testa avermelhou-se sobre a pele morena. Correu até o armário e procurou no fundo da prateleira inferior. Soltou um suspiro de alívio ao encontrar a pequena caixa de metal. Ao abri-la, constatou que seus maiores tesouros permaneciam intactos: a fotografia do jovem de sorriso franco e bondoso e o pequeno livro repleto de misteriosas palavras.
Mas... que era aquilo?
O ouvido aguçado de Tarzan captou um som leve, porém desconhecido. Correndo até a janela, viu que um segundo bote estava sendo baixado do navio, além daquele que já se encontrava na água. Logo depois, vários homens desceram da embarcação e ocuparam os botes.
Eles estavam voltando, agora em maior número.
Durante alguns instantes, Tarzan permaneceu observando enquanto caixas e fardos também eram transferidos para as embarcações. Então, quando os botes começaram a afastar-se do navio, apanhou uma folha de papel e, com um lápis, escreveu em grandes letras de forma, firmes e quase perfeitas. Prendeu o papel à porta da cabana com uma lasca de madeira afiada e, pegando sua preciosa caixa, as flechas e quantos arcos e lanças conseguiu carregar, atravessou a porta e desapareceu na floresta.
Quando os dois botes encalharam na areia dourada, uma estranha mistura de pessoas desembarcou. Eram cerca de vinte ao todo. Quinze tinham a aparência rude e brutal de marinheiros. Os outros cinco pertenciam a um grupo bem diferente.
O primeiro era um senhor idoso, de cabelos brancos e óculos de aros grossos. Os ombros levemente curvados estavam cobertos por um casaco comprido, mal ajustado ao corpo, mas de impecável limpeza. Na cabeça trazia um lustroso chapéu de seda, tornando sua figura ainda mais deslocada naquele cenário da selva africana.
O segundo era um jovem alto, vestido de branco. Logo atrás vinha outro homem idoso, de testa muito alta e gestos agitados.
Depois deles seguia uma mulher negra, corpulenta, vestida com roupas de cores berrantes. Seus grandes olhos revelavam um medo evidente, alternando o olhar entre a floresta e os marinheiros que descarregavam as caixas e os pacotes.
A última integrante do grupo era uma jovem de cerca de dezenove anos. Foi o rapaz vestido de branco quem a ajudou a desembarcar, erguendo-a delicadamente do bote e colocando-a sobre a areia seca. Ela respondeu com um belo e corajoso sorriso de agradecimento, mas nenhum dos dois disse uma palavra.
Em silêncio, todo o grupo caminhou em direção à cabana. Fossem quais fossem suas intenções, era evidente que tudo já havia sido decidido antes mesmo de deixarem o navio.
Os marinheiros carregavam as caixas e os embrulhos, enquanto os outros cinco vinham logo atrás. Assim que depositaram a carga no chão, um deles notou o aviso deixado por Tarzan.
— O que é isso aqui, rapazes? — exclamou. — Esse papel não estava aí há uma hora, pelas barbas do diabo!
Os demais aproximaram-se para olhar por cima dos ombros dos companheiros. Como poucos sabiam ler — e mesmo esses o faziam com dificuldade — um deles voltou-se para o velho do chapéu de seda.
— Ei, professor! Venha ler esta droga aqui!
O idoso aproximou-se lentamente, seguido pelos outros quatro. Ajustou os óculos, leu o papel em silêncio e afastou-se murmurando:
— Notável... Muito notável!
— Ora, velho fóssil! — gritou o marinheiro. — Você acha que eu mandei ler só para você? Volte aqui e leia em voz alta, seu velho lagostim!
O professor parou e retornou calmamente.
— Ah... claro... naturalmente, meu caro. Mil desculpas. Foi apenas uma distração. Notável... Muito notável!
Leu outra vez em silêncio e provavelmente teria ido embora novamente se o marinheiro não o tivesse agarrado pela gola.
— Leia em voz alta, seu velho idiota!
— Ah... claro... claro... naturalmente... — balbuciou o professor, ajustando outra vez os óculos antes de ler:
"ESTA É A CASA DE TARZAN, VENCEDOR DE FERAS E DE MUITOS NEGROS. NÃO ESTRAGUEM AS COISAS QUE PERTENCEM A TARZAN. TARZAN ESTÁ VIGIANDO. TARZAN DOS MACACOS".
— Mas quem diabos é Tarzan? — resmungou o marinheiro.
— É evidente que escreve em inglês — comentou o jovem vestido de branco.
— Mas o que significa "Tarzan dos Macacos"? — perguntou a moça, quase aflita.
— Não sei, senhorita Porter — respondeu o rapaz. — A menos que tenhamos encontrado um macaco fugitivo do Zoológico de Londres, que resolveu trazer sua educação inglesa para a selva. O que acha, professor Porter?
O professor Arquimedes Q. Porter tornou a ajeitar os óculos.
— Ah, claro... naturalmente... Sim, claro. Muito notável! Mas nada posso acrescentar ao que já foi dito para esclarecer este caso tão singular.
E voltou-se lentamente em direção à floresta.
— Mas, papai... — exclamou a jovem. — O senhor ainda não disse absolutamente nada!
— Ora, ora, minha filha... ora, ora... — respondeu o professor com voz calma e afetuosa. — Não sobrecarregue essa sua linda cabecinha com problemas tão complicados e absurdos.
E tornou a afastar-se lentamente, agora em outra direção, olhando fixamente para o chão, com as mãos cruzadas sob as abas do fraque.
— Acho que esse velho imbecil sabe tanto quanto nós... — resmungou o marinheiro de rosto semelhante ao de um rato.
— Fale com respeito! — bradou o jovem, empalidecendo de indignação ao ouvir os insultos do marinheiro. — Vocês assassinaram nossos oficiais e nos roubaram. Estamos em seu poder... Mas tratará o professor Porter e a senhorita Porter com o devido respeito, ou eu o matarei com minhas próprias mãos, esteja você armado ou não!
O rapaz aproximou-se tanto do homem de cara de rato que este, embora carregasse dois revólveres e uma faca, recuou.
— Você não passa de um covarde miserável. Só tem coragem de atirar em alguém pelas costas. Não ousaria disparar contra mim, mesmo armado.
Concluindo a provocação, voltou-lhe as costas e afastou-se calmamente, pondo-o à prova.
A mão do marinheiro deslizou sorrateiramente até a coronha de um dos revólveres. Seus olhos malévolos fixavam-se nas costas do jovem inglês, enquanto os companheiros o observavam em silêncio. Ainda assim, hesitava. No íntimo, era ainda mais covarde do que William Cecil Clayton imaginava.
Do alto da folhagem de uma árvore próxima, dois olhos atentos acompanhavam cada movimento do grupo. Tarzan presenciara a surpresa causada pelo aviso que deixara na cabana e, embora não compreendesse a língua falada por aqueles estranhos, os gestos e as expressões lhe diziam muito. O assassinato traiçoeiro cometido pelo homem de cara de rato despertara nele uma profunda aversão. Agora, vendo-o enfrentar aquele jovem de aparência honesta, sua hostilidade aumentava ainda mais.
Tarzan jamais vira os efeitos de uma arma de fogo, embora seus livros lhe tivessem ensinado alguma coisa sobre elas. Quando viu o marinheiro levar a mão ao revólver, recordou imediatamente a cena presenciada pouco antes e concluiu que o jovem morreria da mesma maneira que o corpulento marinheiro assassinado. Encaixou uma flecha no arco e fez pontaria contra o assassino. Entretanto, a folhagem era tão densa que certamente desviaria o disparo. Então pousou o arco, apanhou uma das longas lanças e a arremessou.
Clayton havia dado meia dúzia de passos. O homem de cara de rato já empunhava o revólver. Os demais observavam. O professor Porter desaparecera pela mata, seguido pelo agitado Samuel T. Philander, seu secretário e assistente. Esmeralda, a criada, ocupava-se em separar, entre as caixas e os embrulhos junto da cabana, a bagagem de sua patroa. Jane Porter voltara-se para acompanhar Clayton quando algo a fez olhar para trás, na direção do marinheiro.
Então três coisas aconteceram quase ao mesmo tempo. O marinheiro ergueu a arma e apontou-a para as costas de Clayton. Jane Porter soltou um grito. E uma longa lança de ponta metálica surgiu como um raio, vinda do alto, atravessando de lado a lado o ombro direito do homem de cara de rato.
O disparo perdeu-se inofensivamente no ar, enquanto o marinheiro tombava com um grito de dor e de espanto. Clayton voltou-se e correu. Os outros marinheiros, de armas em punho, agruparam-se, aterrorizados, fitando a floresta. O ferido contorcia-se no chão, gemendo.
Sem ser notado, Clayton apanhou o revólver caído e o escondeu sob a camisa. Depois fez o mesmo que os marinheiros e passou a observar, perplexo, a mata. — Quem poderia ter sido? — sussurrou Jane Porter, de olhos arregalados, ao lado de William Clayton.
— Suponho que Tarzan dos Macacos realmente esteja nos vigiando — respondeu ele, hesitante. — Mas, para dizer a verdade, não sei se aquela lança era destinada a Snipes. Se era, então o homem da selva é realmente um aliado. Mas... meu Deus! Onde estão seu pai e o sr. Philander? Há alguém na floresta, e quem quer que seja está armado. Professor! Sr. Philander!...
Como não obteve resposta, voltou-se preocupado para Jane.
— O que podemos fazer, senhorita Porter? Não posso deixá-la sozinha aqui com esses bandidos, mas também não é prudente que entre na floresta comigo. Mesmo assim, alguém precisa procurar seu pai. Ele é perfeitamente capaz de vagar sem rumo, alheio ao perigo e ao caminho, e o sr. Philander é apenas um pouco mais sensato do que ele. Perdoe minha franqueza, mas nossas vidas correm sério perigo. Quando encontrarmos seu pai, será preciso fazê-lo compreender os riscos a que se expõe e aos quais também a expõe por causa de sua constante distração.
— Concordo plenamente, e suas palavras não me ofendem — respondeu Jane. — Meu pai daria a própria vida por mim sem hesitar... desde que conseguisse pensar nesse assunto por alguns instantes. Há apenas uma maneira de mantê-lo em segurança: amarrá-lo a uma árvore. Ele não possui o menor senso prático.
— Tive uma ideia — disse Clayton. — A senhorita sabe usar um revólver?
— Sim. Por quê?
— Tenho um comigo. Com essa arma, a senhorita e Esmeralda estarão relativamente seguras dentro da cabana enquanto procuro seu pai e o sr. Philander. Chame Esmeralda para que eu possa partir. Eles não devem ter ido muito longe.
Jane recebeu o revólver e fez o que Clayton lhe pediu. Quando a porta da cabana se fechou atrás das duas mulheres, Clayton voltou-se para a floresta. Alguns marinheiros retiravam a lança do ombro do homem ferido. Clayton aproximou-se deles e perguntou se poderiam lhe emprestar um revólver para sair à procura do professor.
O homem de cara de rato, ao perceber que não estava morto, recuperou sua habitual ferocidade covarde e, entre uma torrente de pragas dirigidas a Clayton, recusou-se, em nome dos demais, a ceder qualquer arma. Snipes, como se chamava, assumira a liderança depois de assassinar o gigante, e tão pouco tempo se passara desde então que nenhum dos outros ainda havia contestado sua autoridade.
A única resposta de Clayton foi um dar de ombros, mas, antes de partir, apanhou a lança que ferira Snipes e, armado daquela maneira primitiva, o filho do então Lorde Greystoke internou-se na densa floresta. Repetidas vezes chamou, em voz alta, pelos desaparecidos. As duas mulheres, na cabana à beira-mar, ouviram sua voz afastar-se aos poucos, até ser abafada pelos mil ruídos da floresta primitiva.
Quando o professor Porter e seu assistente, Philander, depois de muita insistência por parte deste, retomaram finalmente o caminho que supunham conduzir à praia, estavam completamente perdidos no labirinto da mata fechada, tão perdidos quanto seria possível a qualquer ser humano, embora ambos ignorassem esse fato. Foi por mero acaso que seguiram na direção da costa ocidental, em vez de caminharem rumo a Zanzibar, do outro lado do continente africano.
Algum tempo depois, chegaram a uma praia, mas não avistaram nenhuma cabana nem qualquer sinal de vida. Philander tinha certeza de que se encontravam ao norte do ponto de onde haviam partido, quando, na verdade, estavam apenas duzentos metros ao sul.
Nenhum daqueles dois teóricos incuráveis teve a simples ideia prática de gritar para tentar chamar a atenção dos companheiros. Em vez disso, com a confiança absoluta que o raciocínio dedutivo — mesmo baseado em premissas erradas — costuma inspirar em quem o emprega, Samuel T. Philander segurou o braço do professor Arquimedes Q. Porter e conduziu-o para o sul, apesar dos fracos protestos do velho cientista. A direção geral que seguiam era a da Cidade do Cabo, a apenas mil e quinhentas milhas de distância, embora, antes disso, pudessem alcançar alguns povoados civilizados, como ambos sabiam apenas vagamente.
Quando Jane e Esmeralda se viram em segurança atrás da porta da cabana, o primeiro impulso da criada foi barricá-la por dentro. Com esse objetivo, voltou-se para procurar algum meio de fazê-lo.
Mas, ao lançar o primeiro olhar ao redor, soltou um grito de pavor e, como uma criança assustada, escondeu o rosto no ombro de Jane. Esta, voltando-se ao ouvir o grito, compreendeu imediatamente o motivo: estendido no chão, diante delas, estava o esqueleto esbranquiçado de um homem... e outro repousava sobre a cama. — Em que lugar horrível fomos parar? — exclamou a jovem, impressionada, mas sem demonstrar pânico.
Por fim, libertando-se de Esmeralda, que continuava a gritar, Jane dirigiu-se ao pequeno berço ao lado da cama, já sabendo o que encontraria antes mesmo de ver o diminuto esqueleto em toda a sua comovente fragilidade. Que terrível tragédia revelavam aqueles pobres ossos! A jovem estremeceu ao imaginar os acontecimentos que poderiam aguardá-la, assim como a seus companheiros, naquela cabana de má sorte, talvez visitada por criaturas misteriosas e hostis. Logo depois, batendo impacientemente o pé no chão, esforçou-se para afastar aqueles pensamentos sombrios e, voltando-se para Esmeralda, ordenou que se calasse. — Pare com isso, Esmeralda! Pare imediatamente! Está tornando tudo pior do que realmente é...
Mas sua voz, firme e decidida no início, terminou mais baixa e levemente trêmula, ao pensar nos três homens dos quais dependiam para proteção e que, naquele momento, vagavam pelas profundezas da floresta. Pouco depois, Jane percebeu que a porta possuía uma pesada tranca de madeira pelo lado de dentro e, após algum esforço conjunto, as duas conseguiram colocá-la no lugar, pela primeira vez em vinte anos. Então sentaram-se num banco, abraçadas uma à outra, e esperaram.