XV. O Deus da Selva
Quando Clayton ouviu ao longe o eco de um disparo, foi tomado pela angústia. Sabia que ele podia ter sido feito por um dos marinheiros, mas, por ter entregado o revólver a Jane e devido à tensão em que se encontrava, teve a certeza de que a jovem corria grande perigo. Talvez, naquele exato instante, estivesse tentando defender-se de um homem ou de uma fera.
Clayton só podia imaginar o que passava pela mente do seu captor. Tarzan também ouvira o tiro e, de algum modo, parecia profundamente impressionado, pois acelerou o passo de tal maneira que Clayton, sem conseguir enxergar o caminho, caiu mais de vinte vezes em poucos minutos. Incapaz de acompanhar o ritmo do filho da selva, foi ficando cada vez mais para trás. Temendo perder-se definitivamente, chamou em voz alta e teve a satisfação de ver o seu guia descer levemente dos galhos e pousar ao seu lado.
Por alguns instantes, Tarzan o observou atentamente, como se avaliasse a melhor decisão a tomar. Em seguida, abaixou-se diante de Clayton e, por gestos, indicou que ele se agarrasse ao seu pescoço. Um momento depois, levando o jovem inglês às costas, Tarzan voltou a saltar para as árvores.
Clayton jamais esqueceria os minutos que se seguiram. A uma altura que lhe pareceu vertiginosa, foi transportado com espantosa velocidade pelo homem da selva, que saltava de galho em galho, passando de uma árvore para outra, pendurado em cipós ou em ramos flexíveis que sempre conseguia agarrar, embora o luar mal atravessasse o espesso dossel de folhas. Depois do primeiro choque de medo, Clayton foi dominado por um sentimento de profunda admiração e até de inveja daqueles músculos extraordinários e do instinto — ou conhecimento — que guiava o deus da floresta pela escuridão quase absoluta com a mesma segurança com que ele próprio caminharia por uma rua bem iluminada de Londres.
Aqui e ali, alguns raios de luar penetravam a mata, revelando aos olhos espantados de Clayton a estranha rota que percorriam. Nessas ocasiões, o jovem inglês sentia a respiração prender-se ao contemplar o que lhe parecia um abismo sob seus pés. Tarzan seguia o caminho mais favorável para si, entre a folhagem menos densa, o que muitas vezes significava avançar a mais de trinta metros acima do chão.
Apesar de Clayton acreditar que viajavam mais depressa que o vento, Tarzan seguia relativamente devagar, escolhendo cuidadosamente os galhos capazes de suportar o peso dos dois. Por fim, alcançaram a clareira diante da praia.
O ouvido apurado de Tarzan reconheceu imediatamente o som das garras de Sabor arranhando o engradado da janela. Nesse instante, Clayton teve a impressão de que o filho da selva mergulhava de uma altura de dezenas de metros, tão veloz foi sua descida. Ainda assim, mal sentiu o impacto quando tocaram o solo. Assim que se desprendeu das costas de Tarzan, viu-o disparar como um cervo para o outro lado da cabana. Correu atrás dele e chegou a tempo de ver o corpo de uma enorme leoa atravessando a janela; apenas as patas traseiras e a longa cauda permaneciam do lado de fora.
Quando Jane abriu os olhos e compreendeu o perigo que corria, seu corajoso coração perdeu os últimos vestígios de esperança. Então, para seu espanto, percebeu que a leoa estava sendo lentamente puxada para trás e distinguiu, do lado de fora, iluminados pelo luar, os vultos de dois homens.
Ao contornar a cabana, Clayton viu seu extraordinário companheiro agarrado à cauda da leoa com ambas as mãos. Tarzan fincara os pés contra a parede da cabana e, valendo-se de sua força incomparável, puxava o animal para fora. Clayton ajudou-o imediatamente, enquanto o homem da selva gritava alguma coisa numa língua incompreensível. Pelo tom imperioso, parecia claramente uma ordem.
Por fim, o esforço dos dois conseguiu arrastar o corpo da leoa para fora da janela. Só então Clayton compreendeu, ainda que vagamente, a dimensão da coragem daquele homem. Quase nu e armado apenas com as próprias mãos, ele enfrentava uma feroz devoradora de homens para salvar uma jovem que sequer conhecia. Era uma demonstração de heroísmo como jamais imaginara. No seu próprio caso, porém, tudo era diferente, pois arriscava a vida pela mulher que amava. Mesmo convencido de que ambos poderiam morrer, puxava a fera com todas as forças para salvar Jane Porter.
Nesse momento, a luta entre Tarzan e a grande leoa recrudesceu, e Clayton começou a sentir que talvez ainda houvesse esperança. Tarzan continuava a gritar ordens que o inglês não conseguia compreender.
O homem da selva tentava dizer ao desajeitado homem branco que cravasse as flechas envenenadas no dorso e nos flancos de Sabor e procurasse atingir-lhe o coração com a longa faca presa à cintura.
Mas Clayton não entendia. Tarzan também não ousava soltar a cauda da leoa para agir pessoalmente, pois sabia que o frágil homem branco jamais conseguiria segurá-la sozinho, nem por um instante. Lentamente, o corpo de Sabor ia saindo pela janela. Por fim, as espáduas passaram.
Então Clayton presenciou uma façanha inacreditável. Enquanto procurava desesperadamente uma forma de dominar sozinho a fera enfurecida, Tarzan lembrou-se subitamente da luta contra Terkoz. Assim que as poderosas espáduas da leoa emergiram da janela, onde suas garras ainda se prendiam, Tarzan soltou de repente a cauda do animal.
Com a rapidez de uma serpente em ataque, lançou-se sobre o dorso de Sabor e envolveu-lhe o pescoço com os braços musculosos, aplicando o mesmo full nelson com que derrotara o macaco. A leoa rugiu e tentou livrar-se, deixando-se cair pesadamente sobre Tarzan, mas ele não afrouxou o golpe.
Rasgando a terra e o ar com as garras abertas, Sabor rolava pelo chão, soltando rugidos furiosos. Mas os braços de ferro de Tarzan apertavam cada vez mais, forçando lentamente a cabeça da leoa contra o largo peito. Agora, seus dedos estavam firmemente entrelaçados, e a pressão aumentava à medida que as tentativas desesperadas da fera se tornavam cada vez mais fracas.
Por fim, Clayton viu os músculos de Tarzan se contraírem num último e tremendo esforço, destacando-se sob a pele morena iluminada pelo luar. Um instante depois, as vértebras da leoa se partiram com um estalo seco.
No mesmo instante, Tarzan soltou o corpo da fera e, pela terceira vez naquela noite, Clayton ouviu o selvagem brado de vitória dos grandes antropoides. Logo em seguida, o grito apavorado de Jane rompeu o silêncio:
— Cecil... Sr. Clayton! O que foi isso?
Correndo para a porta da cabana, Clayton respondeu em voz alta que estava tudo bem, que o perigo havia passado e que ela podia abrir a porta. Jane ergueu a pesada tranca o mais depressa que conseguiu.
— O... o que foi aquele rugido horrível?
— Um grito de vitória, soltado pelo homem que salvou a sua vida, senhorita Porter. Espere... vou chamá-lo para que possa agradecê-lo.
Ainda assustada, Jane não quis ficar sozinha e acompanhou Clayton até o outro lado da cabana, onde jazia o corpo da leoa, estendido diante da janela arrombada.
Mas Tarzan dos Macacos havia desaparecido.
Clayton chamou várias vezes, sem obter resposta. Por fim, ambos voltaram para a relativa segurança da cabana.
— Que rugido espantoso... — repetiu Jane. — Estremeço só de me lembrar dele. Não me diga que uma garganta humana é capaz de produzir um som daqueles...
— É capaz, senhorita Porter... — respondeu Clayton. — Ou, pelo menos, se não era a garganta de um homem, era a de um deus da floresta.
Então Clayton contou tudo o que lhe acontecera com o homem selvagem: como aquele estranho companheiro lhe salvara a vida por duas vezes, sua força extraordinária, sua agilidade, sua coragem, a pele morena e o belo rosto de expressão firme.
— Não consigo compreender... — concluiu. — A princípio pensei que fosse Tarzan dos Macacos, mas isso não pode ser, porque ele não fala nem entende inglês.
— Seja quem for... — disse Jane — devemos a ele as nossas vidas. Que Deus o abençoe e o proteja na selva...
— Amém... — murmurou Clayton, solenemente.
— Pelo amor do bom Deus... Eu... eu não morri?
Os dois se voltaram ao mesmo tempo e viram Esmeralda sentada no chão, com os grandes olhos arregalados, olhando ao redor como se ainda não acreditasse que continuava viva.
Foi então que veio a reação para Jane Porter. Ela atirou-se sobre a cama, rindo e chorando ao mesmo tempo, tomada por um acesso de histeria.